O primeiro texto do ano

19:31

E talvez a primeira desistência.

A interrogação torna-se uma insistência. Perde-se totalmente a essência. No meio da noite questiona: para quê? por quê? Sentido? Nenhum. Era como se uma parte dela estivesse morta e a outra lutando para viver, para continuar, para não abandonar. Passava muitos minutos encarando as letras, perguntando-se para que serviam, por que eram utilizadas? Perdeu toda a significação.

Ela não via luz. Tentava transpor os limites impostos pela parte morta que assombrava, tentava nadar contra aquela correnteza e permanecia estagnada no mesmo lugar, vez ou outra afogando-se nas letras. Pensou em desistir, pensou em voltar a respirar; e nessas inconstantes decisões que mudavam em lapsos de tempo impossíveis de acompanhar optou por deixar-se levar: afogaria? respiraria? Não sabia, só não tinha forçar para continuar a nadar.

É que nada tinha mundo valor agora.

Talvez, se mudasse um pouco aqui e ali, as coisas voltariam a ser normais; não sabia o que era ser normal - estar normal -. Não via muita graça em insistir naquela coisa chata que não se faz mais porque quer, mas porque tem de ser feito. Obrigações dificultavam ainda mais. A maré ia, voltava e ela permanecia apanhando da ressaca: um constante vai e vem. Nunca ia para não voltar mais.

E ela levava como se fosse normal tamanho estado de insignificância, como se fosse normal perder a própria essência; perder-se. Todavia, entretanto, esperava ser resgatada. O pouco que sobrava apertava o peito e fazia transbordar: era quente, salgado e doloroso. Usava-as vez ou outra ao seu favor, como refúgio sem significado, como meio de não perder o controle que fazia a metade viva não parar de lutar embora cansada, fadigada, exausta, prestes a perder mais aquela batalha.

No final das contas percebeu que tais coisas não eram para depositar aquela insistência. Talvez a ausência de cobrança e de regras transformassem todo aquele nó na garganta na respiração mais leve que pudesse agradar os pulmões. Talvez fosse apenas outro talvez com sabor de negação. Talvez estivesse mais uma vez mergulhada no resigno do próprio erro. Só talvez.


De qualquer forma, ela já não tinha muito o que perder de si. Sabia, todavia, que se perdesse as palavras perderia a metade que ainda lutava, e até a parte morta desejava pela sua permanência. Da única certeza que restava era que quando tudo perdesse o sentido, as palavras - mesmo que perdidas - ainda teriam algo a dizer.

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