RESENHA | Caixa de Pássaros, Josh Malerman

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"As portas estão sempre trancadas. Cobertores tapam as janelas das casas. A internet não funciona mais. Nem o telefone. Os sobreviventes não sabem em quem confiar. Não se pode mais sair às ruas sem uma venda nos olhos. Há algo do lado de fora. Algo que não pode ser visto, que enlouquece as pessoas e as leva a cometer atos violentos seguidos de suicídio."

Caixa de Pássaros é uma história de terror viciante, para ler de uma vez só, sem muitas pausas ou prolongações de leitura. É uma história que você começa e desde o primeiro capítulo já não quer mais parar. A tensão preenche todas as páginas e a narração prende, sem muitos detalhes, a atenção do autor a qualquer eventualidade que possa acontecer e mudar totalmente o curso da história. Ela acontece, mas mesmo esperando por ela, Caixa de Pássaros ainda faz com que os "BANS" esperados se tornem uma surpresa angustiante.

"O mundo exterior soa como ela se sente por dentro. Tempestuoso. Ameaçador. Abominável."

Tudo começa com Malorie, nossa personagem principal, e sua inquietação que a acompanhará durante 268 páginas e quatro anos. Ela está sozinha com duas crianças em uma casa velha, suja e abandonada de onde não podem sair pois o mundo do lado de fora tornou-se mortal. Porém Malorie tem o dever de sair se pretende encontrar um lugar onde seus filhos e ela mesma estejam um pouco mais seguros e em uma situação menos decadente; onde sobreviver é um pouco mais fácil. "Você está salvando a vida deles para que tenham uma vida que não vale a pena", ela pensa. E realmente não valia. Não aquela vida. Não naquele mundo. Não naquelas circunstâncias tão hostis.

Os capítulos se alternam entre um passado não tão distante e um presente angustiante. Malorie precisa tomar uma decisão difícil há quatro anos e finalmente é chegada a hora, mas as memórias permitem entender como e por que a mãe solitária chegou ao impasse e à situação apresentada logo no capítulo inicial. Narrado no presente, Caixa de Pássaros não é uma história que leva o leitor a tempos remotos, ou transmite sensação de saudade, de vida contada em páginas, mas dá a sensação de protagonismo de quem lê, como estivessmos em Riverbridge vivenciando todo o horror de Malorie, Shannon, Tom, Jules, Victor, Olympia, Dom e Cheryl.

O "Relatório Rússia" avança com uma velocidade surpreendente. Há cada vez mais casos em todo o mundo. É assustador ver o mundo enlouquecer, mas não tanto quanto ver o mundo que ficava na cidade que fazia fronteira, ou o vizinho. O medo se alastra e todo cuidado é invalidado, mas necessário. O mundo mudou com o medo, com o perigo e com a violência, loucura e insanidade. A vida que conhecemos hoje é deixada para trás e substituída por meros extintos de sobrevivência.

"Sabe, o tempo não significa mais nada, de certa forma. Mas é uma das poucas coisas que restaram das nossas antigas vidas."

Os habitantes de Riverbridge revezam as tarefas de sobrevivência que antes resumiam-se a simples idas ao banheiro ou copos de água gelados. São completos estranhos que agora moram juntos e dependem um do outro para garantir a própria sobrevivência. Mas não há laços entre eles, não há grande confiança, há a dependência ainda que ela não seja inteiramente necessária.  Malorie, Shannon, Tom, Jules, Olympia, Dom e Cheryl são completamente diferentes, a não ser Malorie, os outros não são explorados com tanta profundidade. Sabemos coisas soltas aqui e ali sobre eles, talvez seja por isso que as atitudes e pensamentos de alguns possam surpreender tanto o leitor. Mas a gente entende.

"Sempre supus que o fim viria da nossa própria estupidez"




Caixa de Pássaros não é apenas um thriller alucinante e ladrão de fôlegos, há algo implícito, metaforizado, que cabe ao leitor interpretar de acordo com sua própria visão de mundo. E a palavra chave para a leitura da obra de Josh Malerman é esta: visão. "Se o problema é a visão, talvez a gente só precise alterar nosso modo de ver. Ou mudar a maneira física como enxergamos alguma coisa."


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