RESENHA | De amor e de sombra, Isabel Allende

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Esta não é apenas uma história. São várias histórias de famílias diferentes, com ideais diferentes, que acabam se cruzando de forma turbulenta no meio do caos da Ditadura Militar na América Latina. É em duas dessas famílias que surgem os protagonistas deste romance: Francisco e Irene. O que começa com uma amizade de trabalho se torna um amor imensurável à medida que o desejo de encontrar a resposta para uma questão que levaria a outras mais é despertado: O que aconteceu com Evangelina Ranquileo?

"Andaram por todos os lados, desde o rio até o cume dos montes sem encontrá-la, o vento arrastou o nome dela por atalhos e caminhos, e ao fim de cinco dias de inútil peregrinação, compreenderam que fora tragada pela violência."



A ditadura ferve nas ruas, a opressão é visível e se torna pior a cada piscar de olhos, Irene Beltran parece despreocupada até se deparar, juntamente com Francisco Leal, com a família Ranquileo e seus segredos. O sumiço de Evangelina, "filha" mais nova da família, levam o casal de amigos a descobertas que terão grande impacto na estrutura de governo imposta no país latino onde vivem.
Este livro não trata somente de Ditadura Militar. A carga social que carrega é tão grande que o coração dói ao ler as linhas que retratam há décadas atrás o que se vê com tanta espontaneidade hoje: conflito político, luta de classes, preconceito, miséria, religião e ainda um feminismo subentendido nas condições das mulheres daquele espaço ficcional, narrado por de forma a expor ao leitor o fato e permitir que tire as próprias conclusões a respeito; além do amor que sempre tenta se sobrepor a todas estas particularidades. "- A partir deste momento deixes crescer de novo o cabelo, Francisco, porque é preciso se opor de todas formas possíveis."

Meu exemplar faz parte da mesma coleção que O amor nos tempos do cólera, resenha em breve, com a única diferença de a leitura não se tornar tão cansativa e maçante; ela flui e flui de maneira intensa. Isabel Allende, a autora, revela fatos e os segredos escondidos dentro de cada história, de cada família, de forma tão simples que choca. É um golpe no coração do leitor, que se desespera junto aos personagens a cada descoberta e a cada sensação que é transcrita. 

"Também nas minúcias era consequente com seus princípios anarquistas: se a liberdade é o primeiro direito do homem, com maior razão devia sê-lo para aquelas criaturas nascidas com asas nas costas."

Cada personagem do romance tem um papel fundamental na história. Não existe aquele secundarismo que só serve para preencher espaço, cada um tem um valor importante para todo o contexto.  Se eu contar mais um pouco da história, darei tanto spolier que perderá a graça, é interessante desfrutar de cada fato que o livro nos entrega de bandeja sem ter consciência do que pode acontecer ou não; é exatamente o que acontece com De amor e de sombra, o leitor nunca espera o que vai acontecer. Essa oportunidade não é dada.

"Não lhe atingia o espírito como justificativa para a série de infortúnios alheios. Carregava sobre os ombro um peso insuportável de dor e injustiça. Frequentemente censurava o Criador, que pusera à prova tão duramente a sua fé: se existia o amor divino, tanto sofrimento humano parecia um escárnio."

Ao mesmo tempo que os personagens são explorados de maneira rápida, eles são explorados de maneira profunda, o que torna o leitor capaz de compreendê-los, até o personagem que causa mais aversão, como a mãe de Irene, Beatriz Beltrán."Por sua vez, Francisco percebeu ao primeiro olhar os preconceitos de classe e a ideologia de Beatriz. Limitou-se a dar-lhe um tratamento cortês e distante, lamentando que fosse a mãe de 'sua melhor amiga." Foi um ponto que eu me apaixonei no livro, sabemos muito de todos, os entendemos e os amamos pelo o que são.

Eu classificaria De amor e de sombra como uma literatura de protesto por conta das inúmeras denuncias sociais, políticas e econômicas que faz durante o desenrolar da história e do florescer do romance entre Irene e Francisco, um amor construído tendo a amizade como princípio e os inúmeros infortúnios da vida como o que os fortalece.

"Como desempregado era um marginal, um ser anônimo, ignorado por todos porque já não produzia e essa era a medida do valor humano no mundo que lhe coube viver." 

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