Resenha | A Redoma de Vidro, Sylvia Plath

20:02



"Esther Greenwood é uma jovem do interior dos EUA que vê sua vida se transformar em poucos meses. Criada nos subúrbios de Boston, Esther vai estudar numa prestigiosa universidade, e lá consegue uma bolsa para um estágio de uma mês em uma revista feminina em Nova York. O mundo parece se abrir para a jovem, com promessas de vasta cultura, uma vida social agitada repleta pessoas interessantes e toda uma cidade que se descortina à sua frente. No entanto,  um verão aparentemente promissor é o gatilho da crise que levaria a jovem do glamour da Madison Avenue a uma clínica psiquiátrica.
Fruto de uma geração pré-revolução sexual, em que as mulheres ainda precisavam escolher entre priorizar a profissão ou a família, Esther caminha na fronteira entre o casamento com um jovem promissor e tolo e a carreira de mulher independente e intelectual, realizada profissionalmente. Essas questões fazem Ester se recolher e afundar cada vez mais, nunca época em que o diagnóstico e o tratamento da depressão eram bastante raros. Com crueza, a voz a personagem apresenta ao leitor o ponto de vista de quem vivencia o colapso. (...)"

"O silêncio me deprimia. Não era o silêncio do silêncio. Era o meu próprio silêncio."

Esther Greenwood não se revela logo de primeira em Nova York. Ela é Elly. Ela não tem identidade. Ela é a sombra de Doreen. Talvez com alguma sorte encontre algo legal durante aquelas escapadas de reuniões e eventos entediantes da revista. A viagem parece ser promissora, uma baita oportunidade, repleta de luxos e aquele empurrão para uma vida sofisticada. Nova York, entretanto, pode ter sido o começo de tudo, ou o gatilho que intensificou a Esther que não se mostrava para ninguém. A Esther que não era Elly.

O mais interessante em "A Redoma de Vidro" é a forma como mergulhamos no particular de Esther e a forma como ela se deixar ler. No começo parece que a história não irá encaminhar para algum lugar, mas depois essa sensação é perdida e a vontade de descobrir o que aconteceu com a personagem-narradora consome. Porém o livro não é de uma leitura fácil, há momentos em que chega a hora de parar, esperar um pouco e retomar a leitura. Não é um livro para ser engolido, apesar da vontade, ele precisa de tempo, de reflexão e isso se deve ao escancaro que há em relação aos sentimentos de Esther expostos de forma ácida, sarcástica e por vezes melancólica.
"Me sentia muito calma e muito vazia do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia"
O que mais me chamou atenção em A Redoma de Vidro  foi a forma com a depressão é tratada como loucura e, sucessivamente, como o louco é tratado como ser sem identidade, sem voz (tanto que no primeiro momento Esther decide não revelar seu nome verdadeiro), não só por quem está de fora da redoma de vidro durante a narrativa, mas também pela própria Esther. É uma crítica ácida ao olhar para a depressão da época, que também pode ser associado aos dias atuais. A época desfavorável ao assunto leva a uma série de descasos, principalmente por parte dos médicos que tratavam da doença; o descaso, até hoje, continua sendo um agravante feroz para quem se encontra dentro da redoma de vidro. "Quanto pior você ficava, mais longe eles te escondiam"

As metáforas que a autora usa para externar sentimentos da narradora-personagem são, sem dúvidas, excepcionais e dão uma dimensão muito maior do que é estar dentro de uma redoma de vidro. Mostra com clareza o que é sentido, como é sentido e as consequências do que se sente, e não há figura de linguagem melhor que a metáfora para proporcionar ao leitor uma maior compreensão daquele universo, com uma pitada de melancolia. As metáforas de Sylvia provocam torpor. 

Com traços autobiográficos, "A Redoma de Vidro" foi o romance que antecedeu o suicídio de Sylvia Plath (a autora suicidou-se pouco tempo após a publicação). Ele não traz apenas o universo particular e quebrado de Esther Greenwood, traz a exemplificação de seus sentimentos, sua relação com o presente e com o passado e o receio em relação ao futuro, tão incerto e tenebroso para a narradora. É
um livro que, mais do que precisa ser lido, precisa ser sentido e compreendido. Compreensão é essencial.

"Me vi sentada embaixo da árvore, morrendo de fome, simplesmente porque não conseguia decidir com qual figo eu ficaria. Eu queria todos eles, mas escolher um significava perder todo o resto, e enquanto eu ficava ali sentada, incapaz de tomar uma decisão, os figos começaram a encolher e ficar pretos e, um por um, desabaram no chão aos meus pés."


"Era como se o que eu quisesse matar não estivesse naquela pele ou no leve pulsar azul sob o meu dedão, mas em outro lugar mais profundo e secreto, bem mais difícil de alcançar."

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6 comentários

  1. "O silêncio me deprimia. Não era o silêncio do silêncio. Era o meu próprio silêncio." velho, isso é mt real!

    Fiquei bem interessada em ler este livro! Estou te seguindo para ver mais resenhas maravilhosas como esta ♥

    Beijos,
    Hey, Catheli!

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    1. Que amor! Muito obrigada por seguir, em breve terá mais resenhas. Estou seguindo também ♥

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  2. Esse é um dos livros que estou me preparando emocionalmente pra ler... Já vi que ele vai mexer muito comigo.
    Beijos
    Balaio de Babados

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    1. Se prepare mesmo, ele mexe muito com o emocional! Precisa ser lido com cuidado. Obrigada pela visita, volte sempre ♥

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  3. Ainda não conhecia, pela sua resenha achei bem interessante. Dica anotada!

    https://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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    1. Oba! Vale muito a pena conferir esse livro. Obrigada pela visita, volte sempre ♥

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