RESENHA | Antes e Depois de Will

18:20



Talvez (com toda certeza) eu tenha levado bastante tempo  entre a leitura de Como eu era antes de você e Depois de Você. A questão é que eu li ambos e agora com o lançamento do terceiro livro, espero não cometer o erro de esperar tanto tempo para ler a continuação. A história de Louisa Clark prende e o mais interessante é que a protagonista não é um estereotipo perfeito como acontece na maioria dos best-sellers. Louisa é normal e leva uma vida com acontecimentos inusitados. Pensei em não resenhar os livros separadamente porque queria fazer algo que conectasse ambos.

Jojo sempre tem boas narrativas na manga, pelo menos em relação à história de Louisa Clark. A escrita é fluída, emocionante e dramática nos momentos certos, engraçada em outros. É um livro completo e não é de difícil entendimento, nem exige uma atenção maior para as construções frasais ou a intencionalidade da autora. Não tem muitas metáforas ou outras figuras de linguagem que tornem a narração profunda. É uma leitura rápida e prazerosa.

Começando por Como eu era antes de você, foi um livro impactante desde o início. Conhecemos todo o universo da história e a narração da Jojo é tão envolvente que faz o leitor não querer parar mais de ler, sentindo-se tão envolvido com as história que é impossível não se surpreender com a decisão de Will e sentir na pele o que Louisa sentiu ao tentar convencê-lo de que aquela decisão não era o melhor caminho a ser seguido.

O que mais ficou em mim de Como eu era antes de você foi o que a questão da escolha da Will faz refletir. Eu não quero me aprofundar nesse assunto porque acredito que deva ser uma experiência individual com a leitura e talvez a maioria não entenda onde eu quero chegar com o que a história transmitiu para mim, mas entendi que Will precisava ir por motivos que transcendem o manejo ético que é exigir permanência de alguém que não pode ficar. Ele deve ser, no mínimo, respeitado. Louisa o amou, entendeu e o respeitou.  

O esforço de Louisa para fazer Will enxergar a vida com outros olhos também é um ponto crucial na história. Me fez entender que por mais que tentamos fazer algo por alguém, a decisão de acatar aquilo não cabe a nós e que talvez tenhamos sim esse poder transformador de mudar a vida de alguém, e que também, talvez, as escolhas alheias sejam fortes o suficiente para que nada as abalem.

Eu não esperava uma continuação para Como eu era antes de você (muito menos um terceiro livro). A história me deu uma sensação completa, não me deixou com gostinho de quero mais e talvez seja por isso que eu tenha ficado relutante em começar a ler Depois de você. No começo, apesar da escrita ter me ganhado logo de cara, eu ficava me perguntando onde iria parar aquele "crime ocorre nada acontece feijoada" e, bom, a leitura é arrastada (mas não entediante ou ruim) até um pouco depois da metade livro, onde as coisas realmente começam a acontecer.

"Minha mãe me disse que ter estado com Will em seus últimos dias afetaria o resto da minha vida, e eu achava que ela tinha se referido a mim, psicologicamente. Pensei que ela estava falando da culpa que eu teria que aprender a superar, do sofrimento, da insônia, dos acessos de raiva estranhos e inoportunos, do interminável diálogo interno com alguém que nem sequer estava presente. Mas depois percebi que não era só a mim: na era digital, eu seria para sempre aquela pessoa. Mesmo se eu conseguisse apagar tudo da memória, eu nunca poderia me dissociar da morte de Will. Meu nome estaria ligado ao dele enquanto houvesse pixels e uma tela. As pessoas me julgariam com base no conhecimento mais superficial - ou às vezes sem qualquer base - e eu não podia fazer nada a respeito."

A nova vida de Louisa, as novas pessoas que a adentraram e as confusões que surgiram no final foram bem gostadas e sensitivas, foram os momentos em que a leitura mais engatou. Jojo Moyes fez um bom trabalho ao desenvolver a temática da superação, do "seguir em frente" no livro, sem teor muito dramático e melancólico (apesar de eu amar) ou muito chororo desnecessário. Achei que foi justo e sério em comparação ao primeiro livro. A autora dá uma dinâmica interessante a respeito da perda ao trabalhar, ainda que superficialmente, outras personalidades que acrescentam na história, principalmente a mãe de Will e o pessoal do grupo de apoio o qual Louisa passa a frequentar depois de uma cena importante que acontece logo nos primeiros capítulos.

"Sabe o que me deprime? O fato de você ficar prometendo levar um tipo de vida e depois se sacrificar por qualquer criatura desamparada que apareça na sua frente. (...) Devia focar em seguir em frente. Devia estar mandando seu currículo, falando com as pessoas, descobrindo seus pontos fortes, sem procurar mais uma desculpa para adiar a sua vida".




O que também me chama atenção na escrita de Jojo são as leves (realmente leves) referências a questões sociais. Em seus três livros eu pude perceber alguns momentos em que as situações, as falas e os posicionamentos das personagens pincelam um pouco de feminismo, também as reflexões a respeito da problema da mídia (isso é BEM mais explícito em A garota que você deixou para trás e  em Depois de você), questões como trabalho, sobrevivência, conflito familiar. Há tudo isso em Jojo Moyes, mas de forma cotidiana e não como uma crítica pesada e dilacerante. Ela encaixa esses temas no cotidiano da história, no comum, e eu acho excelente a inserção dessas temáticas na narração de forma branda, de forma que pegue o leitor despercebido e não com uma pancada na cabeça.

Depois de Você, ao contrário do primeiro livro, deixa a sensação de quero mais. Não crio muitas expectativas para Ainda sou eu porque, apesar de ter gostado muito da leitura do segundo livro, ela não foi excepcional como a do primeiro.

"Não quero que toda a minha felicidade dependa de outra pessoa, não quero ser refém de destinos que não consigo controlar."

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