ESPECIAL | Mulheres e Literatura

16:50




Literatura feminina por muito tempo foi termo designado para aquela leitura tosca de receitas de bolo, boas maneiras, como cuidar de seu marido e aqueles estereótipos clichês que nos acostumamos a abominar. Literatura de mulheres é mais adequado, sem feminices patriarcais, com desejos e pensamentos crus e sem receitas de bolos solados.  Literatura de mulher é literatura de verdade, de força e de resistência. Literatura de mulher não é mais literatura calada, escrita marginalizada, poesia desprezada. Literatura de mulher é transcendência.

O dia oito de março não poderia passar em branco. Apesar de, para mim, a data ter sido transformada em um point de hipocrisia virtual, sua essência e seus motivos continuam vívidos, continuam a fazer valer anos de luta e história feminista. Nada melhor, então, que dar um espaço para vozes, ou melhor, escritas femininas que fizeram e ainda fazem histórias de tirar o fôlego, que se impõe e que rasgam o patriarcado ao meio escancarando o verdadeiro ser uma mulher.


ARTE: REVISTA CULTURA

Para inaugurar a lista das escritoras mais fortes desse mundo, nada melhor que começar com Maria Firmina dos Reis. A autora nasceu em 11 de março de 1825, no Maranhão, em pleno Brasil Império. Nordestina, negra e bastarda, publicou seu primeiro livro, Úrsula, em 1859 na confusão do movimento romantista. Úrsula é considerado o primeiro romance abolicionista no Brasil e o primeiro romance a considerar a escravidão pela perspectiva do escravizado e não mais pelo pensamento etnocêntrico da época. Maria Firmina foi a primeira escritora a romper com a exclusão das mulheres no mundo das letras, iniciando um marco na história da literatura do país. Apesar de sua coragem em ultrapassar todas as barreiras raciais e de gênero que permeavam a sociedade, a política e também a arte naquela época, Maria Firmina foi apagada da história e só "redescoberta" nos anos 70, ano em que seus escritos ganharam espaço no campo dos estudos literários.  Não só com o Romance Úrsula, a autora explicita o ato político que foi  e é ser negra, bastarda e mulher na sociedade e ainda escrever obras que são de tamanha importância, mas que ainda não são abordadas nas escolas tampouco levadas a sério.

Outro símbolo de resistência literária negra e feminina, Carolina Maria de Jesus era favelada e catadora de papel. Nascida em 14 de março de 1914 em São Paulo, foi descoberta em 1958 pelo jornalista Audálio Dantas. Em 1960 é publicado Quarto de Despejo, o diário de Carolina, com a ajuda do jornalista Dantas. Os primeiros exemplares esgotaram-se em uma semana e o livro retrata nada mais nada menos que os pensamentos e o cotidiano da autora negra, pobre e mulher vivendo em uma grande São Paulo em pleno modernismo brasileiro. Carolina teve outras publicações, infelizmente sem o mesmo sucesso que seu livro de estreia, mas tornou-se um símbolo da literatura afro-brasileira e feminina e suas obras ainda são objetos de estudo tanto no Brasil quanto no exterior.


Ana C nasceu em 2 de junho de 1952 no Rio de Janeiro. Foi tradutora e poeta, tem seu nome representante na geração do mimeógrafo da década de 70 e seu nome é muitas vezes associado ao movimento de Poesia Marginal. Em suas poesias, Ana Cristina Cesar expõe seu íntimo feminino, desejos sexuais, prazeres e sentimentos da mulher de forma nua e crua, ao contrário de algumas poetas de sua época ainda presas ao amor romântico e a visão pueril das mulheres. O feminino de Ana C  


Ana Paula Maia, nascida em dezembro de 1977 em Nova Iguaçu - Rio de Janeiro, é uma autora brasileira contemporânea muito prestigiada. Seus escritos carregam a essência da maldade e fraternidade nas personagens. "O belo e o imperfeito ganham novas dimensões em sua literatura. Embora extraídos da realidade, seus personagens recebem roupagem e tratamentos que transformam o cotidiano muitas vezes ignorado, com seus protagonistas invisíveis para a maioria das pessoas, em espetáculo do estranhamento. A autora tematiza a relação do homem com o trabalho, a moldagem do caráter pelas atividades diárias e a inferiorização do homem pelo trabalho que exerce são pontos importantes do universo da autora."


Nascida em 29 de novembro de 1946, Conceição é poeta, escritora e doutora em Literatura Comparada pela UFF. Assim como Carolina Maria de Jesus, mantinham um diário onde anotava seu cotidiano e seus pensamentos. Suas obras, em essência, abordam as faces da descriminação racial, de gênero e de classe. Além disso, é ativamente militante do Movimento Negro e tem grande participação em eventos e questões político-sociais do país. É um das autoras de literatura brasileira e afro mais importantes da atualidade. 


Adélia Prado, sagitariana, nasceu dia 13 de dezembro de 1935. É poeta, professora, escrita e contista ligada ao movimento modernista brasileiro. As obras de Adélia retratam, entre outras coisas, "o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único". Adélia representou a revalorização do feminino nas letras e na mulher como ser pensante, tirando de temáticas cotidianas suas reflexões sobre o que permeia a pequena cidade onde vive. 

Elena Ferrante é pseudônimo de uma escritora italiana cujo identidade não foi revelada. Muitos acreditam que seja uma tradutora ou até mesmo homem, mas lendo suas obras principais A Amiga Gênial, Dias de Abandono e A Filha Perdida, acho muito difícil que a construção das três histórias tenha sido feita por uma homem. Posso estar em enganada, mas a linguagem de Elenea Ferrante em relação a ser mulher, agir mulher e viver mulher é tão despida, nua, ácida e por vezes suja que é difícil - quase impossível - acreditar que toda a roupagem de seus livros é costurada por alguém do sexo masculino.  


Chimamanda Ngozi, nascida em 15 de Setembro de 1977, é uma escritora nigeriana e importantíssima representante da literatura africana no mundo.  Um de seus discursos, We Should All Be Feminists, tornou-se rapidamente representante da voz feminina, tendo trechos usados inclusive por artistas como Beyoncé. Suas obras Hibisco Roxo, Meio Sol Amarelo e No Seu Pescoço foram fortemente aclamadas no Brasil e no mundo, recebendo diversos prêmios e escancarando não só as questões de gênero como também as raciais.


Sylvia Plath, nascida em 27 de outubro de 1932, foi uma poeta e escritora estadunidense. Sua mais famosa obra, A Redoma de Vidro, antecedeu seu suicídio e foi nomeado como um livro semi autobiográfico da autora. Sylvia aborda com sentimentalismo e sem nenhum pano para camuflagem a depressão em plena pré-revolução sexual, em que as mulheres ainda deviam escolher entre trabalho e família. Além disso, trata com clareza como o tratamento para a depressão era atribuído na época, claro, como eram os estereótipos e a visão dos depressivos, sempre taxados como loucos. 


Ana Maria Gonçalves é uma escritora brasileira aclamada, principalmente, por seu romance Um Defeito de Cor que aborda a temática da escravidão. Conta a história de "Luisa", uma pré-adolescente sequestrada para trabalhar nos engenhos brasileiros. Através do livro podemos, a personagem-narradora nos dá a dimensão da escravidão com outros olhos, os olhos de uma mulher negra em processo de formação que passa por diversas barbaridades durante de sua vida. Ana Maria Gonçalves é excepcional em seu livro e, apesar da quantidade de páginas, é uma leitura indispensável.


Hilda Hilst, nascida em 21 de abril de 1930, é uma escritora brasileira que definitivamente causou polêmica. Usando o erotismo e sexualidade como temas centrais de sua obra para cutucar e criticar com fervor a sociedade brasileira, a autora não poupou vírgulas e muito menos separou modelos prontos para suas obras, principalmente em O Caderno Rosa de Lory Lamby e A Obscena Senhora D. Apesar de incompreendida por muitos e pela critica literária, Hilda fez história da literatura brasileira com seus textos e poemas instigantes, misteriosos e, claro, obscenos. 


Elisa Lucinda também é poeta! Fundou a Casa-Poema, uma "instituição sócio-educativa cujo método capacita vários profissionais desenvolvendo sua capacidade de expressão e sua formação cidadã, através da poesia falada." A maioria de seus projetos são voltados para a relação entre poesia e sociedade, expressando-se de forma coloquial para a fácil compreensão de todos.


É fato que Clarice Lispector é a "queridinha" da Literatura Brasileira, mas não é com falta de mérito. Ela carrega em si tanto de literatura que chega a transcender a própria literatura. A última autora da lista é ela por ter assumido duas faces opostas e talvez ao mesmo tempo convergentes da literatura de mulheres. Escreveu o Correio Feminino - leitura de receita de bolo solado - enquanto passava necessidade ao mesmo tempo em que escrevia romances, contos e crônicas com severas críticas à realidade familiar, política e social brasileira. É uma leitura indispensável e com forte teor psicológico que, de fato, revolucionou a literatura. Não é à toa que é considerada uma das escritoras mais importantes do século XX.


É claro que Jane Austen, Emily Bronté entre outras tantas contemporâneas e mais antigas merecem menção por transformarem a literatura em um exercício universal, e não apenas masculino. Toda mulher que se compromete com a literatura, com o romper das barreiras de gênero, classe e raça, também merece destaque. E vocês? Já leram alguma dessas autoras? Tem alguma para indicar? 


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