RESENHA | Dias de Abandono, Elena Ferrante

13:15




"... um microcosmo que talvez contenha uma parábola da libertação feminina na sociedade atual: redentora, mas não sem angústia."

Olga é abandonada por Mário, sem mais em menos, em uma tarde abril. O impacto da repentina separação gera uma transgressão não só da sua vida doméstica e do seu casamento de vinte anos, mas também da própria Olga; quem ela foi, quem ela queria ter sido e quem agora começa a ser. Dias de Abandono retrata, no mais íntimo, os meses que sucederam a ruptura brutal com Mário e principalmente a libertação feminina da personagem-narradora das amarras sociais e também do matrimônio.

Com uma linguagem fácil, simples e ácida, mergulhamos de cabeça no universo de Olga pós-divórcio: sua crise sexual, a autoestima despencando, a perda da noção de si e da própria realidade e o peso de agora arcar com as suas responsabilidades e também com as responsabilidades do marido. Tudo parece extremamente difícil para  mulher enquanto ela procura uma justificativa plausível para o fato de seu ex-marido não mais amá-la.

O casamento de Olga e Mário foi o tipo tradicionalismo que chega a dar enjoo em quem presa por um pouco mais que liberdade. Ela, que abdicou tudo de si em prol da casa e da família, se vê afogada em uma dor profunda e em uma questão complexa sobre quem era e o que agora faria. Entretanto, a ruptura do casamento também significou a ruptura de Olga com todos os estereótipos sociais femininos, principalmente os sexuais e maternais. A figura social cai por terra e a mulher humanizada é exposta de forma feroz, com uma linguagem considerada vulgar pela própria narradora, mas necessária como forma de dizer "não mais".

"Amamos sua vontade de trepar, sentimo-nos tão cegas a ponto de pensar que seja a vontade de trepar conosco, só conosco. Oh sim, ele que é tão especial e que nos reconheceu como especial. Damos um nome àquela vontade de pinto, a personalizamos, e a chamamos de meu amor. Para o inferno de tudo, essa cegueira esse tesão infundado."

É interessante como o particular feminino é explorado no livro e em como a linguagem é a precursora do caminho que "liberta" Olga de sua função mãe-dona-de-casa-mulher-quarentona-bem-vestida-bem-limpa-bem-exemplar. O divórcio não foi apenas com Mário, mas sim com o que impedia Olga de ser a mulher que ela queria ser. Isso não anula a importância do casamento ou da maternidade para ela ou para quem julgue importante, mas evidência de maneira vulgar e feroz que ser mulher não se resume em casar e ser mãe; em ser uma marionete social que sacrifica o "eu" pelo "o que uma mulher deve parecer".

E, é claro, o divórcio de Mario e Olga não foi pacífico. O conflito entre eles e também com seus filhos e até com o cachorro (bela família tradicional) são tão reais que quem já passou por algo semelhante com certeza se identificaria com pelo menos um aspecto do que o término proporciona (e são muitas coisas).

"No momento em que me apaixonei por Mario, comecei a temer que se enojasse de mim. Lavar o corpo, desodorizá-lo, apagar todos os vestígios desagradáveis da fisiologia. Levitar. Queria sair do chão, queria que me visse suspensa em equilíbrio, elevada, como acontece com as coisas integralmente boas. Eu não saía do banheiro até que não desaparecesse o mau cheiro, abria a torneira para que não ouvisse o barulho da urina. Esfregava-me, aparava, lavava os cabelos a cada dois dias. Pensava a beleza como um esforço constante de apagamento da corporalidade. Queria que amasse meu corpo esquecendo o sabor que carregam os corpos. A beleza, eu pensava ansiosamente, é esse esquecimento. Ou talvez não. Talvez tenha sido eu que tenha acredito que o amor dele precisasse daquela minha obsessão. Fora de contexto, retrógada, culpa da minha mãe que me educou para os obsessivos cuidados femininos."

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