RESENHA | A Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector

19:38



"Considerado por muitos o grande livro de Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. tem um enredo banal. Depois de despedir a empregada, uma mulher vai fazer uma faxina do quarto de serviço. Mal começa a limpeza, depara com uma barata. Tomada pelo nojo, ela esmaga o inseto contra a porta de um armário. Depois, numa espécie bárbara de ascese, decide provar da barata morta.
Ao esmagar a barata, e depois degustar seu interior branco, operou-se em G.H. uma revelação. O inseto a apanhou em meio a sua rotina "civilizada", entre afazeres domésticos e contas a pagar, e a lançou para fora do humano, deixando-a na borda do coração selvagem da vida. Esse desejo de encontrar o que resta do homem quando a linguagem se esgota move, desde o início, a literatura de Clarice."

"Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e não apenas superficialmente. Eu era a imagem do que eu não era, e essa imagem do não-se me cumulava toda: um dos modos mais fortes é ser negativamente. Como eu não sabia o que era, então "não ser" era a minha maior aproximação da verdade: pelo menos eu tinha o lado avesso: eu pelo menos tinha o "não", tinha o meu oposto. O meu bem eu não sabia qual era, então vivia com algum pré-fervor o que era o meu "mal".

Em A Paixão segundo G.H., Clarice Lispector explora o interior psicológico de uma mulher que se apresenta apenas com suas iniciais. Para mim foi a leitura mais difícil da autora, não pela linguagem e sim pela complexidade psicológica que a narração traz.
Clarice apresenta uma gama de possibilidades do que está falando ao leitor. Ela passa pela reflexão de tantas coisas que é difícil capturar uma e dizer "sim, é sobre isso que o livro trata". Não, não é. É difícil saber onde ela quer chegar e talvez não tenha querido chegar a lugar algum.  O romance inteiro parece ser uma grande crise existencial da personagem-narradora, que explora sem rodeios as questões familiares, de gênero, religião, amor, ser, verdade, ausência, perda, transformação e outros.
No começo do livro, Clarice diz:

         
"A POSSÍVEIS LEITORES
Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.
C.L."





O que seria uma alma já formada? Sequer existe uma alma formada? Na minha concepção de formação de indivíduo, Clarice não quis que esse livro fosse lido por alguém já que a alma - e tudo que envolve o interno de um indivíduo - está em constante processo de transformação (exatamente o que acontece com G.H. durante as 179 páginas do romance: um longo, intenso e incompreensível processo de transformação , ou melhor, de transcendência).

A leitura não é fluída e muito menos prazerosa. Ela é mais um exercício de reflexão e análise do que qualquer outra coisa. É uma experiência única e individual entre a personagem-narradora e o leitor. É uma leitura que, por vezes, machuca, mas como a própria Clarice disse: ela não tira nada de ninguém. É um livro intenso, complicado, que transpõe a sua própria linguagem para algo muito maior e sem nome. A paixão segundo G.H. é mais experiência do que leitura.

"Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão." 

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