RESENHA | Vidas Provisórias, Edney Silvestre

19:20



Edney Silvestre retoma dois de seus personagens de romances anteriores para compor a narrativa  intercalada de Vidas Provisórias. Paulo e Bárbara estão distantes e, por enquanto, não possuem nenhuma ligação além de compartilharem o mesmo sentimento do exílio. Com a narrativa crua e cotidiana, Edney apresenta universos e realidades diferentes, personalidades marcantes e histórias de perda da identidade juntamente com o acúmulo de uma vida deixada para trás.

"Para que decorar nomes e números de ruas, avenidas, linhas de trens ou estações de metrô, se mais dia, menos dia, vai acabar indo embora? Está é uma vida provisória, ela acredita. Tem de ser uma vida provisória, precisa acreditar."

Paulo foi tirado à força de seu apartamento em 1970, em plena Ditadura Militar brasileira, e levado a experimentar algo dolorosamente permanente e inebriante. Quem ele é, ou julgam ser, faz com que seu corpo seja transportado para o Chile e posteriormente para Suécia, onde conhece Anna, a futura esposa e mãe de seus dois filhos. Ainda que do outro lado do mundo e com a falsa sensação de proteção de um país totalmente oposto ao que fora acostumado, Paulo precisa conciliar a nova vida com as memórias. Em seus capítulos, acompanhamos o personagem desde sua exposição à forma mais cruel e desumanizada de violência até o dia em que seu passado e seu maior medo voltam para assombrá-lo.  A narração de seu livro é intercalada entre primeira e terceira pessoa, expondo fatos, pensamentos, dores e, de forma crua - por vezes incômoda devido ao peso da realidade - a violência, as cicatrizes e as memórias nacionalistas.

"Há aqueles que não suportam as sessões de tortura e se matam na prisão. E há aqueles a quem a memória da dor continua atormentando e esmagando por dias, semanas, meses, anos depois. Uns se enforcam, uns se deixam cair de janelas, alguns pulam nos trilhos do metrô. Há muitas formas. (...) Mas compreendo sua dor. A dor incessante em sua memória. Este é o grande poder dos torturadores. A dor não passa. O domínio deles continua. (...) O que mais lamento é que o suicídio é a vitória final dos torturadores."

Além da exposição completa do corpo, alma e mente de Paulo, Edney apresenta uma forte crítica política ao sistema de governo, como a construção da política brasileira estrutura-se no estado em forma de governo. As questão aqui ultrapassam o que Paulo sente ou acha e vão para um campo coletivo e socialmente perturbador, já que a narrativa contribui para que a realidade seja posta não de forma romântica ou idealizada, mas de forma real. Gera um certo incômodo ao ler determinadas passagens que evidenciam de forma simples e brutal a disparidade social, racial e econômica do país.

"Os donos do Brasil, pensa, cá no trem para Fisksätra. Aqueles que decidem o que somos e seremos, qual a nossa utilidade, onde e de que forma iremos servi-los, se viveremos, ou se nos farão desaparecer sem deixar vestígios, ou se nos querem cegos e surdos e incapazes de ler sequer a placa do ônibus que nos leva da fábrica para casa e de casa para a fábrica."

Bárbara, ainda adolescente e logo imigrante ilegal nos Estados Unidos, foge do rastro de violência que manchara seu sobrenome para sempre. Perdida, com sonhos guardados a sete chaves e sem muita perspectiva de vida e de si mesma, sustenta-se como manicure e faxineira em apartamentos e convive com prostitutas brasileiras que ostentam histórias escondidas e perversas. Ainda que aparentemente longe de quem é e de tudo a sua volta, Bárbara esconde um amor que a machuca. De longe, as da jovem são minhas narrações preferidas do livro, não pelo leve teor melancólico, mas porque como Bárbara limita-se - não por vontade própria - a ser a mesma coisa sempre, sem ao menos conseguir sair do lugar.

É incomodo, às vezes, a forma como a personagem é morna. Morna no sentido de não falar, não haver expressão, não haver imposição. É aquela personagem que tudo de sua história está guardado dentro de si e o pouco que descobrimos é exposto pela narração mais da perspectiva de fora do que de dentro, ao contrário de Paulo que parece balancear mais essa questão. Vidas Provisórias é um livro de leitura e narração simples e direta, mas com uma importante carga histórica e emocional. Não é necessário ler os livros anteriores, mas ler com certeza seria um complemento sensacional para as histórias de Pedro e Bárbara que ficaram com alguns pontos soltos.

"Sistema deprimido é o contrário de sistema nervoso? Eu riria, se pudesse. Mas os remédios me deixam num lugar entre o riso e o choro. Não. Me deixam em um lugar em que não há riso nem choro. É neste lugar que estou vivendo. Ainda."


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1 comentários

  1. Que livro hein! Gostei muito da sua resenha, fiquei interessada.

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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