DE ABRAÇOS ABERTOS AO VENTO

18:23


Talvez a dor não fosse cessar nunca, como uma melancolia arrastada que gruda na alma e não quer sair por nada porque é amor, mas também é perda. No racional, é compreensão, identificação, mas também é um grande e cruel "por quê?". Embora fosse só ausência de presença física, ela havia também levado embora qualquer resquício da presença, da sensação, da esperança, e provocado uma imensidão de vazio que parecia nunca querer diminuir.

Desde o desanoitecer até a fraqueza do crepúsculo ela estava lá, durante o dia, enquanto o sol gritava do lado de fora e durante a noite, quando lua fazia dela ainda mais intensa e forte. Não era bonita, longe de qualquer perspectiva de embelezamento, era desgastante. Era porque assemelhava-se à estagnação: estar parada esperando que ela fosse embora em algum momento, porque não há forças para fazer algo, mas apenas esperando e desejando loucamente que ela fosse.

No plano físico manifesta-se como falta de oxigênio. Como um sufoco. Algo preso na garganta que custa a sair e congestiona a passagem de ar. Um aperto gelado no peito que dá vontade de arrancar, mas ele não some. A dormência das mãos, a fraqueza nas pernas, os olhos inchados e cansados, como a voz triste que pede apenas por perdão. A sensação de nada. Só vazio, só ausência, só distância desmedida.

A voz dele ecoa na minha cabeça como melancolia. Ela vem e vai mostrando-me a todo tempo que ele não está mais aqui, e que mesmo se quisesse nunca mais poderia voltar. E dói. Uma dor profunda, que começa bem lá no fundo e se alastra pelo corpo inteiro. Não é mais a dor do choque da perda, é a dor do vazio da ausência. E ela fica maior com o passar dos dias, como se fosse insuperável. Como se não fosse amenizar nunca. Como se nada mais fosse real do que ela. É só ela.

A catarse das palavras, no final de contas, nunca iria ser um adeus digno ou uma libertação dessa falta, dessa ausência tão profunda que sua ida provocou. Ela nunca seria o que você merece. No presente. A sua voz ainda soa melodiosa, o seu sorriso ainda está gravado e há um momento de alivio por esta ter sido a última lembrança, assim como os olhos brilhantes que diziam um adeus singelo, mas que também agradeciam. E, de qualquer forma, a escolha de ir embora continuava sendo uma escolha, mesmo mal vista, mesmo demonizada, mesmo tão chocante e assustadora.

Fraqueza, loucura, ou o que for. As formas perdiam a silhueta, as cores o cheiro, os sorrisos a luz e tudo, aos poucos, perdia o pouco sentido que um dia fora atribuído. Desconexo, paradoxal, uma vaga percepção de culpa ou alguma coisa parecida com um pedido de permanência. Tudo vão, no final. E lamentações iam e vinham, tão objetivadas a serem intensas, tão intensas, que talvez por serem tanto  tivessem o poder de fazer você ficar. Eram lamentações. Só isso e mais nada. E o que quer que fizesse você ficar, agora já não existia mais.


O som das rochas chocando-se com as ondas era calmo, mas a ação tão violenta. Era como o soar da sua voz, que ainda fazia eco. Elas - as ondas - arrastavam-se para a orla, vinham, iam, mas sempre voltavam. Eu gostaria que você fosse como uma onda e que esperar por você pudesse fazer sentido, mas nada mais possuía sentido. Você era como a ausência de Vinícius. Você era como o ar e, de braços abertos ao vento, era a hora de deixar você ir.




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4 comentários

  1. Caramba!! Para tudo!!! Estou tão maravilhada! Que texto lindo! Impossível de parar de ler, ficou incrível, sua escrita é incrível! As comparações, os sentimentos expostos, foi algo tão profundo. Parabéns ❤️
    Beijos ❤

    Jardim de Palavras

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    1. Que amor! Obrigada pela visita e pelo comentário ♥

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  2. Gente do céu! Que texto foi esse? Me segura que eu estou passando mal! Cada palavra do seu texto foi capaz de despertar diferentes sensações dentro de mim, quase como se o texto ganhasse vida dentro de mim. Adorei a forma como a escrita foi desenvolvida, como uma continuidade infinita de sentimentos, cada linha era uma intensificação das emoções que despertaram dentro de mim.
    Simplesmente maravilhoso!
    Ayumi Teruya,
    http://pandinando.blogspot.com

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    1. Que comentário mais lindo! Obrigada por essas palavras, eu amei! ♥

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