Me empresta o lápis cor-de-pele?

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foto: weheartit


- Me empresta o lápis cor-de-pele? - Quando ouvi, retirei os olhos das provas para prestar atenção no diálogo que se iniciava na carteira não muito distante de onde eu estava. As crianças estavam quietas enquanto faziam a atividade do dia, pareciam concentradas. Em poucos anos de magistério infantil nunca havia ouvido aquela pergunta. Ela havia me pegado de surpresa e por essa razão eu decidi prestar atenção nas duas crianças que compartilhavam um único estojo de lápis de cor. Qual cor, para elas, seria a tal cor-de-pele?

Durante muito tempo acreditei que aquela expressão havia se transformado em algo parecido com o latim: um pedaço da língua que estava morto. Enganei-me. O problema é que uma pergunta aparentemente inocente, um questionamento talvez até corriqueiro, algo a não ser levado a sério, carregava algo intrínseco muito mais perigoso do que aparentava.  Carregava séculos entre os intervalos de um fonema e outro, entre o pronunciar de uma sílaba havia algo de violento e na interrogação um condicionamento a uma resposta única, algo que prevaleceu durante muito e ainda insistia em colorir em tom único.

Encolhi na minha cadeira e na minha posição de professora. Eu já fiz essa pergunta um dia, já respondi a ela e minha resposta foi aquela simples que todo mundo dava através do gesto de retirar um único lápis de um estojo que continha talvez doze, vinte e quatro, quarenta e oito ou cinquenta e seis cores. Aquela reposta que de tão simples era violenta. Aquela mesma. Aquela cor que todos sabem qual é. Era evidente que, como criança, na época, não mensurava a problemática que apresentava aquela situação. Para quem ouve, alguém um dia disse que era daquele jeito então passou a ser, até outro alguém aparecer para dizer que não, não podia ser daquele jeito; só assim pra gente entender porque não podia ser daquele jeito e parar de reproduzir a violência mascarada com simplicidade.

Eu iria interferir de acordo com o gesto, com a resposta ou com qualquer coisa que denunciasse a unicidade da reação à pergunta. Pergunta boba. Pergunta simples. Para que tanto alarde? É só um lápis. Um lápis. Não mais de um. Um. Único. A criança demorava para responder enquanto analisava o estojo e aquilo me deixou aflita, fazendo-me até morder o lábio. Eu esperava por sua resposta, esperava que a possibilidade daquela pergunta ainda ser um meio de perpetuar o mal contra uma existência não existisse mais, ou fosse quase extinta, mas que estivesse bem próxima ao nulo.
Então ela respondeu em alto em bom som, com os olhos fixos no colega ao lado. A resposta, na verdade, era outra pergunta. Uma pergunta que deveria ter sido feita anos antes, quando tudo ainda não parecia ser absurdo, para que as coisas não custassem tanto a acontecer, para que igualdade não fosse algo a ser alcançado e sim algo essencialmente já existente.

- Me empresta o lápis cor-de-pele?

- Sim. Mas de qual pele? 



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1 comentários

  1. Como uma pergunta tão simples pode carregar consigo tanto significado não é mesmo? Lendo seu texto eu consegui visualizar essa cena que embora seja algo fictício já aconteceu várias vezes, mas como você nos mostrar existe uma luz onde mostra que a mentalidade está mudando ainda que seja apenas sobre um cor de lápis cor de pele. Parabéns pelo texto ficou incrível!

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